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Artigo sobre oportunidades de investimento em adaptação climática na África.

Desastres naturais estão ocorrendo com maior frequência e gravidade na África, com inundações e secas particularmente devastadoras. Dadas as crescentes restrições fiscais dos governos, o setor privado tem um papel essencial a desempenhar e tem interesse em expandir investimentos em adaptação que ajudarão a África a se ajustar economicamente à nova realidade climática.

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Novembro de 2022

Principais Conclusões

  • A África é o continente mais vulnerável a desastres naturais induzidos pelas mudanças climáticas, como secas e inundações.
  • Desde 1990, as secas e as inundações reduziram o PIB dos países africanos em 0,7% e 0,4%, respectivamente.
  • Os investimentos iniciais em adaptação climática até 2040 podem chegar a 4% do PIB da África, cerca de US$100 bilhões, ou US$5 bilhões por ano.
  • Esta estimativa constitui o limite máximo, e depende de o investimento ser comercialmente viável, ter as tecnologias necessárias disponíveis e um ambiente de investimento favorável.
  • O investimento do setor privado é uma necessidade, pois os governos africanos, em sua maioria, carecem de espaço fiscal para se adaptar aos níveis necessários.
  • As instituições financeiras de desenvolvimento têm um papel essencial a desempenhar no incentivo ao investimento privado por meio de instrumentos de redução de riscos.

Um sistema de irrigação de culturas movido a energia solar que evite que as colheitas sejam dizimadas pelas secas. Um seguro agrícola que garanta aos agricultores uma renda confortável caso a produção caia drasticamente devido a um evento climático. Quando pensamos em ações prioritárias a serem tomadas para a adaptação às mudanças climáticas, tais exemplos podem não ser os primeiros a virem à mente – mas deveriam ser, argumenta a IFC em um novo estudo baseado na África e que mostra o que o setor privado poderia ganhar ao fazer investimentos que reduzam os danos causados por desastres naturais induzidos por mudanças climáticas.

Embora as mudanças climáticas causem diversos tipos de desastres naturais, incluindo perda de biodiversidade, deslizamentos de terra e incêndios florestais, o estudo se concentra nas inundações e secas, considerados os mais frequentes e economicamente prejudiciais à infraestrutura e aos meios de subsistência. Entre os 43 países africanos analisados, todos os quais sofreram pelo menos uma seca ou inundação desde 1990, o estudo constata que há até US$100 bilhões no total em potenciais oportunidades de investimento inicial na adaptação, ou US$5 bilhões por ano, entre o momento atual e 2040. Essa estimativa constitui o limite máximo, e depende de o investimento ser comercialmente viável, ter as tecnologias necessárias disponíveis e um ambiente de investimento favorável.

Uma conclusão talvez surpreendente da pesquisa é que muitas das oportunidades de investimento mais promissoras estão em países de baixa renda, incluindo Essuatíni, Malawi, Namíbia, Níger e Mauritânia. Em cada um desses países, os potenciais investimentos comercialmente viáveis podem chegar a mais de 1% de seu PIB no ano inicial.

Ao abordar esse tópico, a IFC se afasta de diversas estimativas anteriores de adaptação climática, que são baseadas em custos ou focadas em investimentos tradicionalmente realizados pelo setor público – inspeções de infraestrutura de energia ou de transporte, por exemplo. Além disso, as estimativas incluem uma definição clara dos investimentos cobertos e da metodologia utilizada, algo que outros estudos muitas vezes não divulgam. Com os orçamentos apertados e pouco espaço fiscal, investimentos públicos dos governos africanos não serão suficiente para atender às necessidades de adaptação climática do continente, ressaltando ainda mais a necessidade de investimentos do setor privado.

Nenhum continente foi mais impactado por desastres naturais induzidos por mudanças climáticas do que a África. Entre 1990 e 2019, a África sofreu 1.107 inundações e secas, causando 43.625 mortes e pelo menos $14 bilhões em prejuízos para a agricultura, a pecuária e o patrimônio. A devastação foi imensa, muito embora a África seja o continente que menos contribuiu para as mudanças climáticas, sendo responsável por apenas 3,8% das emissões globais de gases de efeito estufa.


Operadores privados só manterão seus investimentos se tiverem retorno

A agricultura dependente da chuva, que representa uma parcela significativa da economia da África, é especialmente vulnerável a desastres naturais induzidos por mudanças climáticas, como as secas e inundações. Muitos climatologistas projetam que eventos climáticos extremos se tornarão mais comuns e severos nos próximos anos. Assim, mais investimentos são necessários para a adaptação à nova realidade. Esses investimentos podem ser de natureza incremental, como a plantação de variantes de culturas mais resistentes ao clima, ou transformacional, como a ajuda aos agricultores para fazer a transição para áreas do agronegócio menos vulneráveis aos desastres naturais.

Muito frequentemente, a adaptação climática é vista sob a ótica de quanto um investimento em uma medida específica de construção de resiliência custará a uma empresa ou país. Infelizmente, a pesquisa sobre o quanto esses investimentos salvam um país no longo prazo tem sido muito mais limitada. As oportunidades de investimento comercialmente viável que as ações de adaptação climática podem criar para o setor privado também têm sido amplamente ignoradas até o momento. Esta é uma consideração importante, uma vez que os operadores privados só manterão os investimentos se obtiverem retorno. Esse estudo busca preencher essa lacuna de conhecimento.

Ao se estimar oportunidades potenciais de investimento inicial em nível de país, pressupõe-se um retorno de longo prazo sobre o investimento de 8%, que é um limite que a IFC usa ao considerar se deve aceitar novos investimentos. Para a finalidade do estudo, também foi feita a suposição de que as inundações e secas na África permanecerão nos mesmos níveis de hoje a 2040, embora, como observado anteriormente, seja bastante provável que se tornem mais comuns e graves e, portanto, a necessidade de investimento provavelmente passe a ser ainda maior na maioria dos países, em proporção ao aumento da gravidade dos desastres naturais.

O estudo apresenta cálculos desagregados para inundações e secas. Enquanto as inundações tendem a ter um impacto econômico mais prejudicial nas populações afetadas como eventos únicos, as secas foram mais comuns na África durante o período estudado (1990-2019). Cumulativamente, desde 1990 as secas e as inundações reduziram os níveis do PIB dos países africanos, em média, em 0,7% e 0,4%, respectivamente.

A ação sobre a adaptação climática na África apresenta riscos de investimento significativos, reais e percebidos, que podem servir de desincentivo aos investidores. Eles incluem a incerteza sobre a frequência e a gravidade de futuros desastres naturais e as dificuldades no acesso a tecnologias de adaptação e no financiamento de longo prazo em muitas das economias examinadas. É aqui que instituições financeiras de desenvolvimento como a IFC podem ter um papel a desempenhar, ao promover ambientes mais favoráveis ao investimento. Por exemplo, elas podem criar recursos de compartilhamento de risco que incentivem o setor privado a investir mais em tecnologias verdes e também em plataformas, infraestruturas e serviços inteligentes em relação ao clima e resilientes a desastres.

Um exemplo de iniciativa que a IFC já tomou para apoiar o investimento privado na adaptação climática é a Natafim, uma empresa especializada em tecnologias de microirrigação que instalou sistemas de irrigação por gotejamento movidos a energia solar em lotes de terra em fazendas no Níger. Além de receber o equipamento necessário, os agricultores receberam treinamento sobre como usar os sistemas de irrigação, enquanto revendedores, fornecedores e engenheiros locais se beneficiaram com o envolvimento na venda, distribuição e manutenção das bombas e sistemas solares de irrigação. O Níger, um país de baixa renda com uma economia fortemente dependente da agricultura, é altamente vulnerável a secas e inundações que podem ser devastadoras para as colheitas. Inundações severas na estação chuvosa de 2022 mataram cerca de 200 pessoas e destruíram mais de 30.000 casas.

Há uma necessidade urgente de aumentar os investimentos em adaptação climática na África. No momento em que líderes e legisladores mundiais se reúnem para a COP27, a conferência da ONU sobre mudanças climáticas, a ser realizada em Sharm El-Sheikh de 6 a 18 de novembro, adaptação e resiliência são um dos três temas principais ao lado da mobilização do financiamento climático e do acesso a energia e descarbonização. Será essencial ter em mente que a adaptação climática é uma oportunidade de investimento para o setor privado, e não apenas um custo – e que é na África que a necessidade e o potencial são maiores.

An irrigation system in the Malian town of Bafoulabé pumps water from the Senegal River and into the agricultural fields
Foto : Sarah Farhat/World Bank


Sobre os Autores

Mounir Bari é Economista Associado que cobre o Chifre da África na Unidade Regional de Economia para a África da IFC, fornecendo análises macroeconômicas, diagnósticos de países, estratégias e análises climáticas que fundamentam os investimentos e a mobilização de capital privado da IFC para o desenvolvimento.

Sébastien Dessus foi co-autor deste artigo na época em que atuava como Gerente da Unidade Regional de Economia para a África da IFC. Hoje ele gerencia a Unidade de Comércio Global e Integração Regional no Banco Mundial. Sébastien é PhD em economia e publicou inúmeros artigos sobre crescimento e questões ambientais.

Agradecimentos

Os autores agradecem os comentários recebidos de Eric M. Pondi Endengle (FMI), Florent John McIsaac (Banco Mundial) e dos colegas da IFC Denis Medvedev, Vladimir Stenek, Rusmir Musić e Memory Machingambi.