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Bruna Sandrini e Shirley Emerick

Goianésia é uma pequena cidade agrícola do interior de Goiás, com 71 mil habitantes. A base de sua economia já foi o plantio de arroz e café, e depois se diversificou para a produção de leite. Hoje, é um polo de etanol e açúcar. E, na pandemia da Covid-19, Goianésia teve um papel de destaque ao fornecer ao país dois itens essenciais para proteger a população do contágio do coronavírus: álcool 70 líquido e em gel.

A produção saiu da planta da Jalles Machado, empresa do setor do agronegócio fundada em 1983 e responsável por mais de 3.700 empregos diretos na região. Em 2020, em meio à explosão da pandemia, a Jalles Machado recebeu um financiamento da IFC de US$ 27,5 milhões para aumentar a produção de saneantes e, assim, atender a forte demanda de álcool 70 nas regiões de Goiás e São Paulo, principalmente. Esses recursos fazem parte do Pacote Global de Financiamento Acelerado de US$ 8 bilhões da instituição para combater os impactos da Covid-19.

“Rapidamente dobramos nossa produção, com investimento em máquinas, contratação de pessoas e otimização de processos para operarmos 24 horas por dia, sete dias da semana. Procuramos a IFC para nos ajudar com o financiamento, porque é um parceiro que oferece boas condições de prazo e custos competitivos, além do apoio com transferência de conhecimento”, conta Otávio Lage de Siqueira Filho, Diretor-presidente da Jalles Machado.

Unidade de Produção Otávio Lage (UOL).
Unidade de Produção Otávio Lage (UOL). Foto: Jalles Machado

A unidade de saneantes comercializou mais de 3,4 milhões de caixas de álcool 70 para hospitais, órgãos públicos e comércio em 2020, uma marca 78% superior do registrado no ano anterior. Apesar da pressão de demanda e pouca oferta no mercado, a empresa tomou a decisão de manter o preço inicial ao consumidor, dando uma contribuição crucial em um período de crise econômica e sanitária no país. “O agronegócio é um setor importante para a economia brasileira e o investimento da IFC na Jalles foi fundamental para dar à empresa um protagonismo relevante durante a pandemia”, acrescenta Luiz Daniel de Campos, Executivo responsável por Investimentos em Agronegócios da IFC no Brasil.

O apoio também foi concretizado em forma de doação de produtos para a comunidade local. A Organização das Voluntárias de Goiás (OVG) foi uma das entidades acolhidas pela Jalles Machado. Para reforçar o atendimento social e chegar aos 246 municípios do estado, inclusive às comunidades quilombolas, a OVG lançou a Campanha de Combate à Propagação do Coronavírus. Na cesta para as famílias em situação de vulnerabilidade estava o álcool da Jalles Machado, que também foi importante para proteger os mais de 4.900 voluntários e 500 funcionários que não pararam de trabalhar nesse período. “A Jalles já participa das nossas ações e, quando ficou evidente que nossa atividade era ainda mais necessária, a empresa colaborou com doações de álcool, especialmente em um momento em que estava difícil encontrar o produto no mercado”, explica Jeane de Cássia Abdala, Diretora de Ações Sociais da entidade.

O álcool em gel da Jalles Machado foi comercializado para  hospitais, órgãos públicos e comércio e doados para comunidades locais.
O álcool em gel da Jalles Machado foi comercializado para hospitais, órgãos públicos e comércio e doados para comunidades locais. Foto: OVG

Para os moradores de Goianésia, o impacto da Jalles começou bem antes da pandemia. Distante 176 km da capital Goiânia, a cidade hoje se orgulha de ser um destacado polo industrial sucroalcooleiro no centro do estado. Mas, até a década de 1980, os poucos empregos da pecuária não eram suficientes para acolher todos os trabalhadores da cidade. “As indústrias se instalavam na capital e o interior ficava sem opção de desenvolvimento. Nosso desejo era criar bons empregos aqui mesmo”, conta Otávio Lage Filho.

Em 1975, o governo federal criou o Proálcool (Programa Nacional do Álcool) para estimular a produção à base de cana-de-açúcar e diminuir a dependência do petróleo. A Jalles abriu suas portas, então, como uma pequena destilaria de álcool e, nos anos 1990, passou a produzir açúcar, aproveitando a demanda e os preços no mercado internacional. Atualmente, a empresa produz etanol, açúcar, energia elétrica (do aproveitamento do bagaço da cana), saneantes e produtos de alto valor agregado como as linhas de orgânicos e levedura seca. A empresa possui duas unidades de produção (incluindo um centro de distribuição) e 60 mil hectares de plantação de cana-de-açúcar. Na safra de 2020/2021, a colheita foi recorde com 5,3 milhões de toneladas de cana processadas.

Em 2017, a empresa assinou o primeiro projeto com a IFC, em um pacote de financiamento de US$ 55 milhões (US$ 30 milhões de recursos próprios da IFC e US$ 25 milhões mobilizados com o Rabobank e ABN Amro). Incentivada pela valorização do açúcar no mercado, a Jalles Machado investiu em equipamentos modernos, novas tecnologias, expansão do sistema de irrigação e das plantações de cana, além da finalização da construção da planta de processamento de açúcar. A parceria foi importante para ajudar na implementação de algumas melhorias em áreas como segurança do trabalho e gestão corporativa, além da preparação para a abertura de capital, que aconteceu em março de 2021, na B3, com a captação de R$ 741,5 milhões.

Um dos pontos que a Jalles se preocupou em se desenvolver foi na igualdade de gênero, abrindo vagas para mulheres na operação de máquinas e tratores e nas frentes de colheitas e plantações em horário noturno. Os números mostram que há ainda um largo caminho a trilhar, mas a presença feminina, na safra 2020/2021, alcançou 20,1% entre os colaboradores - uma das taxas mais altas do setor -, sendo 26,7% nos cargos de gerência.

A taxa de presença feminina na Jalles Machado alcançou 20,1% na safra 2020/21.
A taxa de presença feminina na Jalles Machado alcançou 20,1% na safra 2020/21. Foto: Jalles Machado

Anny Paiva, 34 anos, faz parte dessa nova geração de liderança feminina da Jalles. Contratada em 2017, ela foi responsável por estruturar a área de logística, assumindo a gestão de fretes, monitoramento de carteiras, acompanhamento de indicadores de custo e satisfação de clientes. Em um ano, a equipe já somava oito pessoas. Em 2020, Anny foi convidada para assumir a gestão do Centro de Distribuição e Armazenagem (CDA) das Unidade Jalles Machado e Unidade Otávio Lage (UOL), e hoje ela comanda um time de 296 funcionários.

Atuar em uma área majoritariamente masculina, como é a logística, não traz receios a ela. Nem mesmo por ser uma empresa do setor agrícola. “Aqui na Jalles há muita liberdade de expressão e valorização do funcionário. É comum ver o respeito da liderança por nossas opiniões e um alto nível de confiança,” comenta.

Anny está fazendo sua parte para criar mais oportunidades para a participação das mulheres na equipe, buscando tecnologia e desenvolvimento para seus colaboradores. No CDA UOL, o índice de participação feminina chega a 36% entre auxiliares, operadoras, coordenadoras e gestora. Dessa forma, a empresa consegue atrair oferta de mão de obra da cidade, principalmente das mulheres. "Além de apoiar o crescimento dos setores de agronegócios e de energia renovável, o investimento da IFC na Jalles Machado pretende também incentivar a melhoria nos padrões de sustentabilidade social da indústria de açúcar e etanol do país", completa Luiz Daniel, da IFC.

Publicado em novembro de 2021